1 de agosto de 2008

O Japão está em destaque no Jazz em Agosto



Sushi jazz

O Japão está em destaque no Jazz em Agosto deste ano e anunciam-se texturas e sabores invulgares. Alguns pratos podem deixar as orelhas em fogo. A trajectória do guitarrista japonês Otomo Yoshihide é inusitada: acordou para o jazz com Eric Dolphy, Ornette Coleman, Derek Bailey e o free japonês. Iniciou-se cedo no jazz e no punk rock. Fez estudos de etnomusicologia. Em 1990 fundou o grupo Ground Zero. E também os projectos Double Unit Orchestra (dois grupos independentes com um só líder), Celluloid Machine Gun (inspirado nas bandas sonoras do cinema de Hong Kong), Mosquito Paper (fundado na leitura de extractos da imprensa tablóide de Xangai) e Sampling Virus Project (baseado na livre circulação de samples no interior da banda), o trio ISO (guitarra + bateria + sampler) e o duo Filament (guitarra + sampler). Em 1999 fundou o projecto mais duradouro: o New Jazz Quartet, que veio ao Jazz em Agosto 2004, reforçado pelo perito em demolições Mats Gustaffson (sax).
O registo desta detonação foi comercializado como ONJQ Live in Lisbon e é o terceiro no que se anuncia como uma série dedicada a concertos memoráveis deste festival (a Gulbenkian e a Clean Feed estão de parabéns pela iniciativa). A New Jazz Orchestra (ONJO) que virá à Gulbenkian inclui os membros do ONJQ e concilia convulsões sísmicas de inspiração free com placidez etérea. A sua matéria-prima são originais de Yoshihide, temas de Takeo Yamashita (um veterano compositor para séries de TV) e temas de Dolphy – o que prova que não há amor como o primeiro.
Satoko Fujii (n.1958) também lidera orquestras de jazz capazes de fazer mover as agulhas dos sismógrafos mas apresentar-se-á em Lisboa com o seu mais pacato Min-Yoh Ensemble. Fujii foi aluna de Paul Bley e gravou um disco em duo com este, mas o seu pianismo revela fortes afinidades com Cecil Taylor.
Tem ensaiado diferentes formações: duos, trios, quartetos e big bands – em 2006 lançou quatro discos com quatro orquestras diferentes. Este seu Min-Yoh Ensemble conta com Natsuki Tamura (trompete), Curtis Hasselbring (trombone) e Andrea Parkins (acordeão) e inspira-se na música tradicional japonesa para construir delicadas tapeçarias impressionistas, de grande riqueza tímbrica, em que o piano é o principal fio condutor.
Os PAAP (ex-RADAR) são também japoneses, foram revelados ao Ocidente por John Zorn e são formados por Inada Makoto (contrabaixo, voz), Katori Koichiro (piano, acordeão, voz) e Mizutani Yasuhisa (sax soprano, clarinete, flauta, percussão). Há quem lhes aponte influências de Steve Lacy e Jimmy Giuffre. O que eu digo é que será uma bênção se os dois “vocalistas” mantiverem a boca fechada.
Resta falar do único grupo não-japonês da primeira semana: o duo John Zorn & Fred Frith.
O guitarrista Fred Frith foi co-fundador dos grupos Henry Cow, Massacre e Skeleton Crew, tem composto peças para grupos “eruditos” como o Quarteto Arditti, o Ensemble Modern e o ASKO Ensemble, e tem feito um pouco de tudo no território entre estas balizas – incluindo tocar baixo no asilo de speed-freaks que foram os Naked City de John Zorn.
Se Sísifo fosse hoje condenado pelos deuses a um penoso trabalho eternamente renovado, atribuir-lhe-iam o levantamento exaustivo da discografia de Zorn. Os guardiões do jazz tradicional descartam-se deste corpus polimórfico e fractal, omitindo-o pura e simplesmente dos seus dicionários e enciclopédias. O que é desonesto e obtuso: muitas das experiências de Zorn podem estar bem longe daquilo a que se convencionou chamar “jazz”, mas é indubitável que ele tem os pés assentes na tradição e, entre as suas paixões pelo hardcore japonês (cá está a Japanese connection) e pela música klezmer, a música para filmes (reais e imaginados) e as infinitas ramificações do projecto Masada, os quartetos de cordas e as colaborações com Mike Patton, a sua “música romântica” e o free thrash demencial dos Painkiller, há lugar para um quarteto dedicado à música de Sonny Clark, um quinteto dedicado à música de Ornette Coleman e um trio (News for Lulu) dedicado a Kenny Dorham, Hank Mobley e o citado Clark.
Mas, como se pode conferir pelo volume 5 da série 50th Birthday Celebration (Tzadik), quando Zorn e Frith se juntam não é para recriar o be bop do anos 50. Aliás, pode até ficar a dúvida se se trata efectivamente de um duo ou de um duplo monólogo. Ou se os sons que produzem saem mesmo de um saxofone alto e de uma guitarra. Ou se não estão ambos possuídos por mil demónios. Os que não forem fãs incondicionais de Frith e Zorn devem prevenir-se com água benta e Alka Seltzer.
A primeira vaga do Jazz em Agosto espanta a passarada dos jardins da Fundação Gulbenkian entre quinta-feira e sábado.

Jan Kubelik plays "Zephyr" by Hubay