22 de abril de 2010

Apontamentos traduzidos sobre canarios de canto

O canário de canto Timbrado Espanhol
A missão destas linhas é realmente complicada. Nelas vou tentar explicar o profano que é e que caracteriza o canário de Canto Espanhol (Timbrado). A dificuldade radica principalmente no desconhecimento de esta raça entre a própria paixão (afición) espanhola, pois não é infrequente ver como se denomina "timbrado" a todo aquele canário verde o pio que, na realidade, no é mais que um canário comum, entendendo como tal o que não pertence a raça alguma. De facto, a fama de bons reprodutores, tem feito que muitos falsos aficionados proclamem, que os seus canários são "timbrados" para assim poder vende-los melhor.

A verdade é que as características morfológicas da raça que nos ocupa (bastante semelhante, na aparência, as dos canários comuns, já que o primordial é o canto e em geral, não se cuida tanto a parte morfológica) dão lugar a este tipo de situações, no obstante, tentarei dar algo mais de luz sobre o assunto e fazer ver que um bom canário de Canto Espanhol (Timbrado) não pode, em modo algum, ser confundido com um canário corrente

Introdução
Os canários de canto são aqueles que se criam, logicamente, pela beleza do seu canto, O qual tem sido modelado pelo homem ao largo dos séculos buscando a pureza na emissão do som (tom, intensidade e timbre) e a maior musicalidade possível (ritmo, harmonia e melodia), valendo-se dele da sua sensibilidade musical e da excelente matéria prima que o canário silvestre lhe proporcionou.
A C.O.M. (Confederação Ornitológica Mundial) reconhece como raças de canários de canto o roller (Alemanha), o Malinois (Bélgica) e o Timbrado Espanhol. A principal diferença entre o canto destes canários radica no tom em que o emitem e no tipo de giros que realizam. Serve como critério diferenciador, em relação ao tom de emissão do canto, que o roller emite a sua melodia em tonalidades baixas, o Malinois em tonalidades medias e o cantor Espanhol em tonalidades altas, em relação as outras duas raças e sem que o seu canto resulte excessivamente elevado ou estridente (em outras palavras e desmentindo uma certa lenda negra que circula ao respeito, o leitor poderia ter perfeitamente um dos nossos cantores nacionais na sala de sua casa desfrutar apaixonadamente a melodia de seu canto).
Hoje em dia, em Espanha, a raça de canto mais cultivada é o Timbrado, o Malinois e o roller, sobre tudo este último, estão em claro retrocesso, o qual, em quanto a canaricultura desportiva vai-se desenvolvendo, o que é verdadeiramente lamentável.

BREVE HISTORIA DO TIMBRADO OU CANÁRIO DE CANTO ESPANHOL
A nossa primeira raça internacionalmente reconhecida é a mais próxima do seu antepassado silvestre.
 A explicação fomenta-se radica em que o único que se quis aperfeiçoar foi o seu canto, As variações morfológicas que se tem produzido se devem ao ambiente e à vida em cativeiro e a as transformações precisas para alcançar um máximo rendimento nos seus dotes canoros. Em suma, tem-se aumentado algo a estrutura tem-se desenvolvido
aquelas partes anatómicas que influenciam de alguma maneira no seu canto (cabeça mais grande e uma maior largura peitoral, como consequência do desenvolvimento do aparelho respiratório da ave e uma maior capacidade pulmonar, principalmente).
O canário do Pais, como era conhecido antigamente, gozou de uma grande aceitação entre a paixão (afición.) de António Drove Aza que descreveu os primitivos canários do País como aqueles "cujo o canto era meritório, era apreciado fora  das nossas fronteiras por não emitir notas desagradáveis e sim, em troca, múltiplas de variações bem vocalizadas e moduladas, num repertório contrastado de tonalidades diversas, No qual (...) expressavam estrofes completas do canto do rouxinol emitidas com discreta sonoridade e delicados tons de voz.".
O canário do País esteve a ponto de desaparecer no nosso século devido a uma serie de causas, as principais foram:

1º) A aparição em Espanha dos primeiros canários frisados importados, que foram cruzados com os "do País" para buscar características anatómicas mais próximas aos canários de postura (principalmente aumento da forma).
2º) O auge do canário roller, fez com que a maior parte dos escassos exemplares puros "do País" que havia foram cruzados.
3º). A Guerra Civil Espanhola e as suas desastrosas consequências.
4º) Para alguns autores da época usaram canários com” factor vermelho” também no plantel derivado à descoberta dos canários de "factor vermelho".
Os focos donde se cultivavam os genuínos canários de Canto Espanhol ficaram perdidos no ouvido.
Assim se manteve a situação até que, nos anos quarenta, um grupo de sócios da Associação de Canaricultores Espanhóis, de Madrid, propôs-se recuperar a nossa antiga raça de canários. O debate surgiu entre a afición e entre todos se puseram "mãos à obra". Nos anos cinquenta se realizou - se o primeiro "Código de Canto" e se deu um novo nome à raça: "Timbrado Espanhol" (actualmente se usam indistintamente Timbrado e canário de Canto Espanhol).
 Já nesta época destacam-se duas correntes dentro deste hobby, que propunham que duas linhas de canto diferentes, uma delas encontrava-se nas Astúrias (corrente maioritária entre os criadores da A.O.N.S., actual F.O.C.D.E.) e a outra em Madrid (em torno a A.C.E. e a F.O.E.), era uma mostra mais do entusiasmo com o que se recebeu de novo entre os aficionado da raça autóctone.
 Nesta ordem de coisas houve falta de união que levou ao não reconhecimento em 1956, o Timbrado Espanhol foi reconhecido internacionalmente em Bruxelas, no ano 1962, pela C.O.M.
Seria o primeiro de tantos êxitos da canaricultura espanhola, depois chegariam a conseguir o reconhecimento internacional de outras raças do nosso país.
Desde 1962 muito se tem feito e tem sido os vários os Códigos de Canto que tem tido o nosso canário.

Também só há a lamentar a diferença de critérios existente, respeito ao Timbrado Espanhol, entre nossas diferentes federações nacionais, diferenças que dão lugar a que a selecção leve a cabo em atenção a parâmetros, em ocasiões, muito distintas, quando não contraditórios, em d cada una delas.
CARACTERISTICAS DO CANÁRIO DE CANTO ESPANHOL
A aparência física desta raça difere pouco da do canário silvestre, como já se apontou anteriormente, não obstante a estrutura é maior.
Nós encontramos antes um canário de aparência robusta, tamanho médio, cabeça grande, peito muito largo, plumagem lisa e compacta (os frisos muito marcados são causa de desqualificação nos concursos), cola não muito larga e patas curtas.
Não é possível fazer uma descrição geral valida para a totalidade dos exemplares, já que em primeiro lugar está o canto tem-se renunciado, desde antigamente, a uma unificação do tipo morfológico. 
A aparência física varia muito entre os canários criados em diferentes zonas geográficas. No que se refere à cor, em princípio, admitem-se todos sempre que não apresentem factor vermelho.
Não obstante, fora das cores clássicas, que são o verde, o cinzento, o bruno - erroneamente chamados por muitos aficionados isabela -, ou amarelo, ou branco e os respectivos pios, há que desconfiar e pensar na possibilidade destes cruzamentos com canários de cor.
Por último, mencionar que se admitem os exemplares monudos (com poupa).
No que refere ao canto, pode-se dizer que é um canário de canto metálico, alegre e muito variado.
A emissão do canto em tons médios y baixos, acompanhada da realização de u excesso de giros próprios de outras raças, é um indício de cruzamento que pode levar a desqualificação no concurso do exemplar em questão.
Podemos classificar os giros que conforme o Código de Canto de múltipla formas, aqui utilizaremos três classificações:

   1. PELO RITMO DE EMISSÃO.
Atendendo a cadencia ou velocidade de emissão das diferentes sílabas ou partes do giro falamos de:
1. Giros de ritmo continuo: São aqueles em que o ouvido humano não pode apreciar separação alguma entre as diferentes sílabas que compõem o giro, devido a que o número das mesmas emitido por segundo é muito elevado, produzindo um efeito de continuidade do som favorecido pelas especiais características sonoras das consoantes que intervierem, geralmente pelo "r" e, ocasionalmente, o "l".
2. Giros de ritmo semi-continuo: São aqueles em que apreciamos cada uma das sílabas do giro, mas que apenas tem separação ou descanso entre a sua emissão.

 3. Giros de ritmo descontinuo: Variações em que a emissão de seus diferentes partes realizam -se de forma claramente espaçada, poderíamos dizer que o canário descansa entre sílaba e sílaba (Este tipo de giros se emite a uma cadencia mínima aproximada de umas quatro sílabas por segundo).

   2. PELA SONORIDADE.

Pelas peculiaridades sonoras dos giros distinguimos entre:
   1. Giros metálicos: Cujo som faz lembrar o que produzem os materiais metálicos.
   2. Giros ocos: O seu som recorda-nos algo produzido, por exemplo, ao golpear a madeira.
   3. Giros aquosos: Recordam o som da água, em diferentes situações.
Os três tipos anteriores são os principais, mas tambem podem falar de giros partidos (como se fosse o partir de alguma coisa), giros aflautados, etc.
   3. PELA SUA AVALIAÇÃO
Pela sua avaliação no Código de Canto, podemos distinguir três grupos. Ainda que não correspondem sempre avaliação e o grau de dificuldade, podemos dizer que, em termos gerais, que os giros mais valorizados são os que oferecem ao canário uma maior dificuldade de realização:
   1. Giros pontuados até 9 (na realidade 27 pontos).
   2. Giros pontuados até 6 (na realidade 18 pontos).
   3. Giros pontuados até 3 (na realidade 9 pontos)
Os diferentes giros podem ser realizados com modulações ascendentes e descendentes, com o que a melodia do canário ganha em beleza e na dificuldade.
Avançando no conhecimento do canto de nossa raça nacional, tem chegado o momento de conhecer as diferentes variações que o compõem.
 Como o leitor poderá observar, muitos dos giros recebem o nome de instrumentos musicais ou de sons característicos que todos temos presentes na nossa memória,
do canário antigo e do actual são semelhantes assim ,o  som de uns e outros guardam uma grande semelhança.
Faremos um esquema dos giros do canário de Canto Espanhol (Timbrado), ajudando-nos para nas classificações vistas anteriormente:
GIROS DE RITMO CONTINUO
-Metálicos: Timbres (3 pontos.)
-Oco: Variações rodadas (6 pontos.)
GIROS DE RITMO SEMI-CONTINUO
-Metálicos: Timbres (3 pontos.)
-Cascavel (3 pontos.)
-Ocos: cloqueios (6 pontos.)
-Castanholas (3 pontos.)
-Aquosos: Timbre de agua (3 pontos.)
-Agua semi-ligada (3 pontos.)
GIROS DE RITMO DESCONTINUO
-Os Flóreos (9 pontos.) e Flóreos lentos (9 pontos.) podem ser tanto ocos como metálicos.
-Metálicos: Campainha (3 pontos.)
-Ocos: cloqueios (6 pontos.)
-Aquosos: Agua lenta (6 pontos.)
-As Variações conjuntas (9 pontos.) - são giros compostos, como indica o seu nome, e são o resultado da conjunção de um mesmo giro de vários simples.
A sua localização nesta parte do esquema deve-se a que as variações conjuntas só podem dar-se como giros de ritmo descontínuo, ainda não o é a única forma em que se podem ouvir.
Restam a pontuação aqueles giros que se emitem com rascada, estridência ou nasalidades.
Esta tem sido, grosso modo, a apresentação do canto do Timbrado Espanhol, podemos falar de duas grandes linhas de canto, que se correspondem, basicamente, com aquelas correntes que temos citado ao falar da história da raça. Vejamos como se caracterizam:
Línea asturiana: Destaca nestes canários a variedade de flóreos, flóreos lentos, cloqueios e aguas (semi-ligada e lenta), dito de outro modo, são canários seleccionados para realizar os giros mais belos e difíceis: os descontínuos. Criam-se, sobre tudo um terço a norte de Espanha. Em Andaluzia, Valência coexistem com outra linha.
Linha madrilena: os seus criadores procuram um canto completo, isto quer dizer, que tenha o maior número possível de giros da ficha de julgamento.
A sua criação centra-se, principalmente, em Madrid, Estremadura, Castela, Mancha e Catalunha.
Também é a linha cultivada nos países Ibero-americanos por influência da F.O.E.
Conclusão
Neste texto pretendi fazer uma caracterização ao canário de Canto Espanhol (Timbrado) e demonstrar a sua grandeza.
Darei -me por satisfeito se conseguir que o leitor tenha umas ideias básicas sobre esta bonita raça e vejam alguns tópicos que circulam entre os canaricultores sobre ela.
Para terminar, amigo leitor, um conselho, se alguma vez quiseres adquirir um autêntico canário de Canto Espanhol (Timbrado), põe-te em contacto com um criador que se dedique exclusivamente à criação desta raça e, se não conheces ninguém, consulta uma associação para que te ponham em contacto com um, só assim tens garantias de que o exemplar que adquires é de raça pura.
Autor: Miguel Angel Martín Espada
Juiz C.N.J./F.O.C.D.E. de Canto T. Espanhol
traduzido por mim


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