14 de julho de 2016

Pardais que cantam menos erros fertilizam mais ovos e são mais admirados por fêmeas

Os pardais comuns norte-americanos (os juncos-de-olho-escuro), que cantam com menos erros, fertilizam mais ovos e são os prediletos das fêmeas, que preferem “cantores” sem deslizes na hora de acasalar, revela uma investigação científica da Universidade do Porto.



Investigadores da Universidade do Porto, em colaboração com a Universidade do Indiana (EUA), analisaram mais de mil gravações de uma espécie de pardal comum norte-americano e concluíram que os machos que cantam com “menos erros” fertilizam mais ovos e são os preferidos das fêmeas para acasalar, explicou à Lusa Gonçalo Cardoso, investigador do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genético/InBio (CIBIO), da Universidade do Porto, e autor sénior da pesquisa científica sobre os enganos do pardal ‘junco-de-olho-escuro’.
“Cantar com menos erros significa mais paternidade”, destaca, em entrevista à Lusa, Gonçalo Cardoso, referindo que foram captadas mais de mil canções, durante duas primaveras, de cerca de 200 juncos para depois as canções (um sinal sexual nas aves) serem analisadas.
Segundo Gonçalo Cardoso, a resistência a erros pode indicar, por um lado, aspetos da qualidade dos indivíduos, e por outro lado, os ouvintes, neste caso as fêmeas que decidem com quem acasalar, prestam atenção a essas pistas para decidirem com quem acasalar”, podendo concluir-se pode que menos erros no canto significa mais “sucesso reprodutor” e “mais qualidade dos machos”, para além de se compreender melhor o funcionamento da comunicação animal.
“Os ouvintes podem estar a prestar atenção e a detetar esses erros como forma de perceber a qualidade dos diferentes indivíduos que estão a cantar”, explica o investigador Gonçalo Cardoso.
No estudo, que vai ser publicado em setembro na edição impressa da revista American Naturalist, os investigadores descobriram que cantar com poucos “erros” reflete aspetos da qualidade dos machos, como a sua idade e experiência.
Os machos mais velhos, mais experientes cantavam menos alguns erros, o que sugere que cantar poucos erros, a resistência a erros, é sinal de qualidade”, conta o investigador, que destaca também que ao monitorizarem o sucesso reprodutor desses animais, quer as crias que conseguiam ter no próprio ninho, quer no ninho dos vizinhos (porque há alguma paternidade extra par nesta espécie) e mais uma vez, para alguns tipos de erros, machos que cantavam menos erros, conseguiam ter mais paternidade no conjunto total de paternidade no seu ninho”, refere aquele investigador do CIBIO.
Para Gonçalo Cardoso, que contou com a participação de André Ferreira, também investigador no CIBIO, na pesquisa científica, a descoberta de que erros de comunicação indicam a qualidade dos indivíduos ajuda a explicar a causa de muitas espécies terem sinais sexuais simples.
“Como os erros são mais fáceis de detetar em sinais simples e repetitivos, os indivíduos podem beneficiar ao usar esses sinais para mostrar claramente que não cometem erros”, explica, acrescentando que é, portanto, na “ausência de erros que reside a indicação de habilidade”.