11 de agosto de 2008

O fado foi ao festival e a planície aplaudiu


Música. Ontem foi o último dia de Sudoeste TMN, que esperava pelo regresso dos Franz Ferdinand. Momento 'rock'n'roll' depois de um dia com nomes portugueses em destaque.
Camané passou por lá, encantou e deixou festivaleiros a pensar em fado. Organização contou 160 mil pessoas nesta 12.ª edição.
Camané estreou-se em nome próprio nos palcos do Sudoeste Dizia que não, que não gostava de fado. Aquilo é coisa "triste, aborrecida". Afinal, o Sudoeste é praia e campismo, noites longas e dias preguiçosos. Pouco tempo antes, o concerto de Deolinda tinha sido português, tradicional e à guitarra. "Mas isto é fado", respondem, a diferença parece estar "no ritmo, na alegria".
Chegados a Dança de Volta, o mesmo fado é Camané como estrela pop, contrabaixo nervoso e guitarras em cascata. Quem não conhecia ficou para ver, quem já gostava gritou o nome do fadista bem alto.
O fado esteve no Sudoeste, fez-se ouvir porque Camané reclama atenção obrigatória. E só não foi mais vitorioso porque os pormenores que esconde foram, em parte, camuflados pelos palcos vizinhos.
Pelo Planeta Sudoeste passeavam-se festivaleiros que, em 2005, viram Camané no palco principal.
Elogios como "a maior voz dos Humanos" ditavam ansiedade pela estreia do fadista em nome próprio na Zambujeira do Mar, pela chegada do fado à planície. O primeiro é tido como celebridade popular, "carismático e único", dizem ali perto.
O segundo pede precaução nas palavras de quem rara vez escuta o género. "Joana, Joana, é agora". E Joana, que já antes não tinha poupado adjectivos, encontra no palco o centro das atenções: um Camané que prometia apresentar um espectáculo muito semelhante ao que temos visto desde que Sempre de Mim foi editado.
Fato escuro e mão no bolso sob as luzes. Palmas e assobios em ambiente rock'n'roll entre a multidão, que ali outras tradições ficaram de fora. Sei de um Rio vai obrigando uns a dizer que "isto é coisa para arrepiar".
É um Carlos que, de mão dada, vai pedindo a quem o acompanha: "Ouve os versos com atenção".
Lembra-te Sempre de Mim é para abraços e danças a dois. E Senhora do Livramento motiva vozes bem ensaiadas a lançar um "ah, fadista" para o palco.
Com o contrabaixo de Carlos Bica (o convidado especial) como único acompanhamento, o momento pede por menos ruído alheio.
E quando Camané deixa o palco entregue aos músicos, a voz foge de quem a tinha como razão para ali continuar de pé. Alguns despedem-se antes do tempo, outros procuram nova companhia no telemóvel.
Mas o fado é música de "histórias", com diferentes faces e cores distintas. E quando as mais iluminadas regressam, o povo (entre o qual se manifestavam muitos espanhóis) salta, aplaude e aclama Camané, que é, claro está, "o maior".
No final, o fadista acena um adeus e não regressa para o encore. Parece saber que a atenções não estiveram sempre naquela tenda, que o algodão doce da menina de biquini que por ali encontramos estava só de passagem.
O Sudoeste ficou convencido, a paisagem serve o fado e "os fadistas têm que voltar ao cartaz". A vontade era de um fã, de nome Jorge, que concordava com muitos outros: não fosse o alinhamento, que foi pedindo mais espaço para dar brilho aos pormenores requintados, e a noite teria pertencido a Camané.

Jan Kubelik plays "Zephyr" by Hubay