Mostrar mensagens com a etiqueta escritores e as aves.. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta escritores e as aves.. Mostrar todas as mensagens

8 de agosto de 2011

O melro

 
O melro, eu conheci-o:
Era negro, vibrante, luzidio,
Madrugador, jovial;
 
Logo de manhã cedo
Começava a soltar, dentre o arvoredo,
Verdadeiras risadas de cristal.
E assim que o padre-cura abria a porta
Que dá para o passal,
Repicando umas finas ironias,
 
O melro; dentre a horta,
Dizia-lhe: "Bons dias!"
E o velho padre-cura
não gostava daquelas cortesias.






O cura era um velhote conservado,
Malicioso, alegre, prazenteiro;
Não tinha pombas brancas no telhado,
Nem rosas no canteiro:
Andava às lebres pelo monte, a pé,
Livre de reumatismos,
Graças a Deus, e graças a Noé. 
 
 
O melro desprezava os exorcismos
Que o padre lhe dizia:
Cantava, assobiava alegremente;
Até que ultimamente
O velho disse um dia:


"Nada, já não tem jeito!, este ladrão
Dá cabo dos trigais!
Qual seria a razão
Por que Deus fez os melros e os pardais?!" 

























E o melro entretanto,  

Honesto como um santo,
Mal vinha no oriente 
A madrugada clara, 
Já ele andava jovial, inquieto, 
Comendo alegremente, honradamente,  

Todos os parasitas da seara
Desde a formiga ao mais pequeno insecto.  
E apesar disto, o rude proletário,  
O bom trabalhador,  
Nunca exigiu aumento de salário.


Que grande tolo o padre confessor! 

Foi para a eira o trigo;
E, armando uns espantalhos,
Disse o abade consigo:
"Acabaram-se as penas e os trabalhos."
 

Mas logo de manhã, maldito espanto!
O abade, inda na cama,
Ouvindo do melro o costumado canto,
Ficou ardendo em chama;
Pega na caçadeira,
Levanta-se dum salto,
E vê o melro, a assobiar, na eira,
Em cima do seu velho chapéu alto! 









 











Chegou a coisa a termo
Que o bom do padre-cura andava enfermo;
Não falava nem ria,
Minado por tão íntimo desgosto;
E o vermelho oleoso do seu rosto
 

Tornava-se amarelo dia a dia.
E foi tal a paixão, a desventura
(Muito embora o leitor não me acredite),
Que o bom do padre-cura
Perdera  o apetite!

Andando no quintal, um certo dia,
Lendo em voz alta o Velho Testamento,
Enxergou por acaso (que alegria!,
Que ditoso momento!)
Um ninho com seis melros, escondido
Entre uma carvalheira.


E ao vê-los exclamou enfurecido:


"A mãe comeu o fruto proibido;
Esse fruto era minha sementeira:
Era o pão, e era o milho;
Transmitiu-se o pecado.
E, se a mãe não pagou, que pague o filho.
É doutrina da Igreja. Estou vingado!"




E, engaiolando os pobres passaritos,
Soltava exclamações:
"É uma praga. Malditos!
Dão me cabo de tudo esses ladrões!
Raios os partam! Andai lá que enfim"

E deixando a gaiola pendurada,
Continuou a ler o seu latim,
Fungando uma pitada.


Vinha tombando a noite silenciosa;
E caía por sobre a natureza
Uma serena paz religiosa,
Uma bela tristeza
Harmónica, viril, indefinida.
A luz crepuscular 




 
Infiltra-nos na alma dorida
Um misticismo heróico e salutar.
As árvores, de luz inda douradas,
Sobre os montes longínquos, solitários,
 















Tinham tomado as formas rendilhadas
Das plantas dos herbários.
Recolhiam-se a casa os lavradores.
Dormiam virginais as coisas mansas:
Os rebanhos e as flores,
As aves e as crianças.


Ia subindo a escada o velho abade;
A sua negra, atlética figura,
 

Destacava na frouxa claridade,
Como uma nódoa escura.
E, introduzindo a chave no portal,
Murmurou entre dentes:
"Tal e qual tal e qual!
Guisados com arroz são excelentes."


Nasceu a Lua. As folhas dos arbustos  
Tinham o brilho meigo, aveludado,  
Do sorriso dos mártires, dos justos.  
Um eflúvio dormente e perfumado  
Embebedava as seivas luxuriantes.  
Todas as forças vivas da matéria  
Murmuravam diálogos gigantes  
Pela amplidão etérea.  

São precisos silêncios virginais,  
Disposições simpáticas, nervosas,  
Para ouvir falar estas falas silenciosas  
Dos mundos vegetais.  

As orvalhadas, frescas espessuras,  
Pressentiam-se quase a germinar.  
Desmaiavam-se as cândidas verduras  
Nos magnetismos brancos do luar.  
E nisto o melro foi direito ao ninho. 
Para o agasalhar, andou buscando  

Umas penugens doces como arminho,  
Um feltrozito acetinado e brando. 
Chegou lá, e viu tudo. 
Partiu como uma frecha; e, louco e mudo,  
Correu por todo o matagal; em vão!  

Mas eis que solta de repente um grito  
Indo encontrar os filhos na prisão. 
"Quem vos meteu aqui?!" O mais velho,  
Todo tremente, murmurou então: 


"Foi aquele homem negro. Quando veio,
Chamei, chamei Andavas tu na horta  
Ai que susto, que susto!, ele é tão feio! 
Tive-lhe tanto medo! Abre esta porta 
E esconde-nos debaixo da tua asa!

Olha, já vão florindo as açucenas;  
Vamos a construir a nossa casa  
Num bonito lugar 
Ai! quem me dera, minha mãe, ter penas  
Para voar, voar!" 

E o melro alucinado 
Clamou:

"Senhor! senhor!  
É porventura crime ou é pecado 
Que eu tenha muito amor 
A estes inocentes?!  

Ó natureza, ó Deus, como consentes  
Que me roubem assim os meus filhinhos,  
Os filhos que eu criei!  

Quanta dor, quanto amor, quantos carinhos,  
Quanta noite perdida 
Nem eu sei... 

E tudo, tudo em vão! 
Filhos da minha vida 
Filhos do coração!!!



Não bastaria a natureza inteira, 
Não bastaria o Céu par voardes,
E prendem-vos assim desta maneira!
Covardes! 


A luz, a luz, o movimento insano,

Eis o aguilhão, a fé que nos abrasa
Encarcerar a asa
É encarcerar o pensamento humano.
A culpa tive-a eu! Quase à noitinha
Parti, deixei-os sós 


A culpa tive-a eu, a culpa é minha,
De mais ninguém! Que atroz!
E eu devia sabê-lo!
Eu tinha obrigação de adivinhar
Remorso eterno! eterno pesadelo!




Falta-me a luz e o ar! Oh, quem me dera
Ser abutre ou fera
Para partir o cárcere maldito!
E como a noite é límpida e formosa!
Nem um ai, nem um grito
Que noite triste!, oh, noite silenciosa!"


E a natureza fresca, omnipotente,
Sorria castamente
Com o sorriso alegre dos heróis.
Nas sebes orvalhadas,
Entre folhas luzentes como espadas,
Cantavam rouxinóis.


Os vegetais felizes
Mergulhavam as sôfregas raízes
A procurar na terra as seivas boas,
Com a avidez e as raivas tenebrosas
Das pequeninas feras vigorosas
Sugando à noite os peitos das leoas.
 

A lua triste, a Lua merencória,
Desdémona marmórea,
Rolava pelo azul da imensidade,
Imersa numa luz serena e fria,
Branca como a harmonia,
Pura como a verdade. 

 
E entre a luz do luar e os sons das flores,
Na atonia cruel das grandes dores,


O melro solitário
Jazia inerte, exânime, sereno,
Bem como outrora o Nazareno
Na noite do calvário!

Segundo o seu costume habitual,
Logo de madrugada
O padre-cura foi para o quintal, 
Levando a Bíblia e sobraçando a enxada.
Antes de dizer missa,
 

O velho abade inevitavelmente
Tratava da hortaliça
 

E rezava a Deus-Padre Omnipotente
Vários trechos latinos,
Salvando desta forma, juntamente,
As ervilhas, as almas e os pepinos.



E já de longe ia bradando:
Olé!
 

Dormiram bem? Estimo
Eu lhes darei o mimo,
Canalha vil, grandíssima ralé!
Então vocês, seus almas do Diabo,
Julgam que isto que era só dar cabo

 

Da horta e do pomar,
E o bico alegre e estômago contente,
E o camelo do cura que se aguente,
Que engrole o seu latim e vá bugiar!
Grandes larápios! Era o que faltava
 

Vocês irem ao milho,
E a mim mandar-me à fava!
Pois muito bem, agora que vos pilho
Eu vos ensinarei, meus safardanas!
 

Vocês são mariolões, são ratazanas,
Têm bico, é certo, mas não têm tonsura
E, nas manhas, um melro nunca chega
Às manhas naturais de um padre-cura.
 

O melhor vinho que encontrar na adega
É para hoje, olé! Que bambochata!
Que petisqueira! Melros com chouriço!
E então a Fortunata

 

Que tem um dedo e jeito para isso!
Hei-de comer-vos todos um a um,
Lambendo os beiços, com tal gana enfim,
Que comendo-vos todos, mesmo assim
Eu fico ainda quase em jejum!
 

E depois de vos ter dentro da pança,
Depois de vos jantar,
Vocês verão como o velhote dança,
Como ele é melro e sabe assobiar!"



Mas nisto o padre-cura, titubeante,
Quase desfalecendo,
Atónito de horror, parou diante
Deste drama estupendo:



O melro, ao ver aproximar o abade,
Despertou da atonia,
Lançando-se furioso contra a grade
Do cárcere. Torcia,
Para os partir os ferros da prisão,
Crispando as unhas convulsivamente
 

Com a fúria dum leão.
Batalha inútil, desespero ardente!

Quebrou as garras, depenou as asas
E alucinado, exangue,
Os olhos como brasas,

 

Herói febril, a gotejar em sangue,
Partiu num voo arrebatado e louco,
Trazendo, dentro em pouco,
Preso do bico, um ramo de veneno.
E belo e grande e trágico e sereno,
 

Disse:
"Meus filhos, a existência é boa
Só quando é livre. A liberdade é a lei,
Prende-se a asa mas a alma voa
Ó filhos, voemos pelo azul! Comei!" -


E mais sublime do que Cristo, quando
Morreu na Cruz, maior do que Catão,
Matou os quatro filhos, trespassando
Quatro vezes o próprio coração!
Soltou, fitando o abade, uma pungente
Gargalhada de lágrima, de dor,
E partiu pelo espaço heroicamente,
Indo cair, já morto, de repente
Num carcavão com silveiras em flor.
 

E o velho abade, lívido d'espanto,
Exclamou afinal:
"Tudo o que existe é imaculado e é santo!
Há em toda a miséria o mesmo pranto
E em todo o coração há um grito igual.
Deus semeou d'almas o universo todo.

 

Tudo que o vive ri e canta e chora
Tudo foi feito com o mesmo lodo,
Purificado com a mesma aurora.
Ó mistério sagrado da existência,
Só hoje te adivinho,
 
Ao ver que a alma tem a mesma essência,
Pela dor, pelo amor, pela inocência,
Quer guarde um berço, quer proteja um ninho!
Só hoje sei que em toda a criatura,
 

Desde a mais bela até à mais impura,
Ou numa pomba ou numa fera brava,
Deus habita, Deus sonha, Deus murmura!

 

Ah, Deus é bem maior do que eu julgava"
E quedou silencioso. O velho mundo,

 

Das suas crenças antigas, num momento,
Viu-o sumir exausto, moribundo,
Nos abismos sem fundo
Do temeroso mar do Pensamento.

E chorou e chorou A Igreja, a Crença,

Rude montanha, pavorosa, escura,
Que enchia o globo com a sombra imensa
Dos seus setenta séculos d'altura;
O Himalaia de dogmas triunfantes,

 

Mais eternos que o bronze e que o granito,
Onde aos profetas Deus falava dantes,
Entre raios e nuvens trovejantes,
Lá dos confins sidérios do infinito;
Esse colosso enorme, em dois instantes

 

Viu-o tremer, fender-se e desabar
Numa ruína espantosa,
Só de tocar-lhe a asa vaporosa
Duma avezinha trémula, a expirar!


E, arremessando a Bíblia, o velho abade
Murmurou:

"Há mais fé e há mais verdade,
Há mais Deus concerteza
Nos cardos secos dum rochedo nu
Que nessa Bíblia antiga Ó Natureza,
A única Bíblia verdadeira és tu!..."

Guerra Junqueiro

3 de agosto de 2011

Ave de paso

Jose Luis Figuereo, better known as El Barrio (a name he took in tribute to the Santa Maria neighborhood of Cadiz where he was born), is one of a few artists pushing the borders of flamenco both farther and wider. 
"My music sounds like flamenco, because I am a flamenco man, but people mustn't get mixed up saying the music I make is flamenco." Influenced by the Andalusian rock scene, El Barrio argues that his musical path is closer to artists like Triana, Alameda, Medina Azahara, and Cai than traditional flamenco. That said his past is certainly steeped in flamenco tradition. 
Before gaining any notoriety as a vocalist, he was a guitarist playing in the restaurants and bars of Madrid and Cadiz, embarking on a performance career even before his teen years. 
After his debut solo record in 1996, El Barrio recorded regularly and to consistently positive reviews, if not impressive sales. His audience knows him not only as an expert musician, but a poet as well, paying utmost attention to the lyrical content of his music, which is not a trait typical of flamenco artists. His 2006 release Playas de Invierno for the Senador label is easily found and accessible even to stateside audiences. ~ Evan C. Gutierrez, Rovi

Pájaros de Barro


Por si el tiempo me arrastra

a playas desiertas,

hoy cierro yo el libro

de las horas muertas.

Hago pájaros de barro.

Hago pájaros de barro y los echo a volar.

Por si el tiempo me arrastra

a playas desiertas,

hoy rechazo la bajeza

del abandono y la pena.

Ni una página en blanco más.

Siento el asombro de un transeúnte solitario.

En los mapas me pierdo.

Por sus hojas navego.

Ahora sopla el viento,

cuando el mar quedó lejos hace tiempo.

Ya no subo la cuesta

que me lleva a tu casa.

Ya no duerme mi perro junto a tu candela.

En los vértices del tiempo anidan los sentimientos.

Hoy son pájaros de barro que quieren volar.

En los valles me pierdo,

en las carreteras duermo.

Ahora sopla el viento.

Cuando el mar quedó lejos hace tiempo.

Cuando no tengo barca, remos ni guitarra.

Cuando ya no canta el ruiseñor de la mañana.

Ahora sopla el viento.

Cuando el mar quedó lejos hace tiempo.

En los valles me pierdo,

en las carreteras duermo.


de Manolo García

20 de julho de 2011

«A Casa dos Pássaros»estreia em Oeiras na quinta-feira






 













«A Casa dos Pássaros», peça de Jaime Rocha encenada por Celso Cleto, que estreia na quinta-feira em Oeiras, desenvolve «um triângulo amoroso violento entre mãe, a filha e o namorado desta», disse o encenador à agência Lusa.Com os atores Alexandra Leite, Francisco Côrte-Real, Rita Cleto e Rita Simões, a peça estará em cena até 28 de agosto no Auditório Eunice Muñoz, em Oeiras.
«Esta é uma peça que diz muito do carisma da sociedade portuguesa», salientou Celso Cleto que revelou que em palco os atores contracenam «dentro de uma gaiola antiga de madeira». O cenário é do próprio Cleto que se arriscou também nesta área, apesar de considerar «um regresso [seu] ao teatro de artes».

Diário Digital / Lusa 


2 de junho de 2009

Prémio Camões: Arménio Vieira

Cidade da Praia, 02 Jun (Lusa) -- A poesia e a escrita do escritor cabo-verdiano Arménio Vieira "engrandece a Língua Portuguesa", afirmou hoje à Agência Lusa o ministro da Cultura de Cabo Verde, ao comentar a atribuição do Prémio Camões."É um escritor/poeta de ruptura, que saiu da tradicional ladainha da terra de Cabo Verde e abriu-se ao mundo. Arménio Vieira faz uma literatura de dissidência saudável.Rompeu com a tradição e abriu-se ao mundo. Aliás, o mundo é pequeno para ele", afirmou Manuel Veiga, que considera "O Eleito do Sol" a melhor obra do autor.Sobre o facto de, pela primeira vez, Cabo Verde ter sido distinguido com o Prémio Camões, Manuel Veiga considerou que "já era mais que tempo", lamentando, porém, que Manuel Lopes, um dos maiores autores cabo-verdiano, já falecido, nunca tenha sido galardoado com um prémio "mais que merecido".


19 de março de 2009

Moçambique: Começam filmagens de «O Último Voo do Flamingo»

Marracuene, uma pequena vila a poucos quilómetros de Maputo, vive desde hoje dias diferentes. Palavras como «acção», «silêncio» ou «corta» vão ser das mais ouvidas durante seis semanas, nas filmagens de «O Último Voo do Flamingo».

A agitação começou às sete horas de quarta-feira, quando a equipa de filmagens, dirigida pelo realizador moçambicano João Ribeiro, cortou uma rua com fitas brancas e vermelhas e começou a filmar a história de misteriosas mortes de soldados das Nações Unidas, que o escritor também moçambicano Mia Couto conta no livro «O último voo do flamingo».
A história de Mia Couto passa-se em Tizangara, uma pequena vila, como Marracuene, do interior de Moçambique, poucos meses depois do fim da guerra civil, onde cinco misteriosas explosões matam outros tantos soldados da missão de paz da ONU, restando deles apenas o pénis e os capacetes azuis É daí que parte Mia Couto para contar depois a história do oficial de investigação, o italiano Massimo Risi, de Joaquim, o tradutor que na verdade não sabe línguas, de Temporina, uma mulher velha de corpo jovem, ou de Ana Deus queira, a prostituta da vila. Mas também a história de lutas entre o poder local e tradicional, entre a sociedade ocidental e africana, de mistérios e crenças.
Em Marracuene, hoje, uma pequena multidão assistia atentamente aos primeiros momentos dessa história, a maior parte jovens, sorrisos envergonhados, contentes com a novidade na terra e alguns ainda sem saber o que viam. «Pensei que estavam a gravar algum anúncio para a televisão».
E João Ribeiro mais atento ainda, boné e auscultadores, gritando ordens, mandando repetir cenas, dirigindo uma equipa que ao todo é composta por meia centena de pessoas, sem contar com os figurantes É sempre difícil adaptar uma obra literária ao cinema», conta à Lusa num intervalo, enquanto se mudam carris (onde corre a câmara de filmar) e se colocam os actores nos lugares certos.
E justifica: vem de um género para outro e essa mudança de género tem as suas consequências.

«Gosto das imagens que Mia Couto deixa passar através do texto. Este é o meu quarto filme com base em textos dele.
O texto do Mia é muito descritivo, uma pessoa lê e vê as imagens. Mas há factores como o som, a linguagem, as dimensões... temos de fazer opções e eu não posso e não tenho tempo nem meios para fazer tudo o que está no livro.
Por isso fiz as minhas opções, o público dirá se são boas», conta.
João Ribeiro fez até agora curtas-metragens e «O último voo do flamingo» é o primeiro grande filme, que quer ver nas salas de cinema antes do próximo Natal.
Mas há nove anos, diz, que tem o filme na cabeça, acrescentando depois que em Moçambique não é fácil fazer cinema, porque não se conseguem fundos, além de que «não há regra, nem lei, que facilite a vida» aos cineastas, «antes pelo contrário».
Com apoios essencialmente portugueses, argumento e produção de João Ribeiro e Gonçalo Galvão Teles (Fado Filmes), o filme tem como actores principais Carlo D´Ursi (italiano), Eliot Alex, Gilberto Mendes e Cândida Bila (moçambicanos), Cláudia Semedo (Portugal) e Adriana Alves (Brasil).
Hoje nem todos andavam por Marracuene, onde o dia começou com chuva e o sol nem apareceu. João terminou as filmagens ao início da tarde, embora, avisa, vá haver dias em que se trabalhará noite dentro.
Mas a festa em Marracuene, «uma vila parada no tempo, com todas as matizes de Tizangara», começou sem eles. Porque não é todos os dias que se assiste em directo à realização de um filme de um milhão de euros.

12 de julho de 2008

Filhos Raianos


que água é essa que te cobre o ventre, irmão,e no momento em que as cegonhas pretas trespassa mas montanhas, gritas, ó vago rumor.que terra levas à boca e proferes o sanguedos nossos antepassados, as metáforas nas mãos, o centeio, os livros amontoados no dorso dos nossos inúmeros quartos. que risco é esse na tua pele?que lume é esse que te repousa na asa de um pássaro, corvo marinho e a sua réstia me levade encontro ao cerrar da voz e do olhar da nossa mãe,com que vimes chicoteias o corpo dos filhos que um dia teremos, qual a água que lhes cobrirá as feridas, a última nudez?!



7 de junho de 2008

Pardal de Timor








O sol anunciava o final de mais um dia e lá, entre as árvores, estava Andala, um pardal que não se cansava de observar Yan, a grande águia.

Seu vôo preciso, perfeito, enchia seus olhos de admiração. Sentia vontade em voar como a águia, mas não sabia como o fazer. Sentia vontade em ser forte como a águia, mas não conseguia assim ser. Todavia, não cansava de segui-la por entre as árvores só para vislumbrar tamanha beleza... Um dia estava a voar por entre a mata a observar o vôo de Yan, e de repente a águia sumiu da sua visão.

Voou mais rápido para reencontrá-la, mas a águia havia desaparecido. Foi quando levou um enorme susto: deparou de uma forma muito repentina com a grande águia a sua frente. Tentou conter o seu vôo, mas foi impossível, acabou batendo de frente com o belo pássaro. Caiu desnorteado no chão e quando voltou a si, pode ver aquele pássaro imenso bem ao seu lado observando-o.

Sentiu um calafrio no peito, suas asas ficaram arrepiadas e pôs-se em posição de luta.

A águia em sua quietude apenas o olhava calma e mansamente, e com uma expressão séria, perguntou-lhe:


- Por que estás a me vigiar, Andala?
- Quero ser uma águia como tu, Yan. Mas, meu vôo é baixo, pois minhas asas são curtas e vislumbro pouco por não conseguir ultrapassar meus limites.
- E como te sentes amigo sem poder desfrutar, usufruir de tudo aquilo que está além do que podes alcançar com tuas pequenas asas?


- Sinto tristeza. Uma profunda tristeza. A vontade é muito grande de realizar este sonho...
O pardal suspirou olhando para o chão... E disse:
- Todos os dias acordo muito cedo para vê-la voar e caçar. És tão única, tão bela. Passo o dia a observar-te.
- E não voas? Ficas o tempo inteiro a me observar? Indagou Yan.
- Sim. A grande verdade é que gostaria de voar como tu voas... Mas as tuas alturas são demasiadas para mim e creio não ter forças para suportar os mesmos ventos que, com graça e experiência, tu cortas harmoniosamente...


- Andala, bem sabes que a natureza de cada um de nós é diferente, e isto não quer dizer que nunca poderás voar como uma águia. Sê firme em teu propósito e deixa que a águia que vive em ti possa dar rumos diferentes aos teus instintos. Se abrires apenas uma fresta para que esta águia que está em ti possa te guiar, esta dar-te-á a possibilidade de vires a voar tão alto como eu. Acredita!
E assim, a águia preparou-se para levantar vôo, mas voltou-se novamente ao pequeno pássaro que a ouvia atentamente:


- Andala, apenas mais uma coisa: Não poderás voar como uma águia, se não treinares incansavelmente por todos os dias. O treino é o que dá conhecimento, fortalecimento e compreensão para que possas dar realidade aos teus sonhos. Se não pões em prática a tua vontade, teu sonho sempre será apenas um sonho. Esta realidade é apenas para aqueles que não temem quebrar limites, crenças, conhecendo o que deve ser realmente conhecido. É para aqueles que acreditam serem livres, e quando trazes a liberdade em teu coração poderás adquirir as formas que desejares, pois já não estarás apegado a nenhuma delas, serás livre!
Um pardal poderá, sempre, transformar-se numa águia, se esta for sua vontade.
Confia em ti e voa, entrega tuas asas aos ventos e aprende o equilíbrio com eles.
Tudo é possível para aqueles que compreenderam que são seres livres, basta apenas acreditar, basta apenas confiar na tua capacidade em aprender e ser feliz com tua escolha!
Autor desconhecido


22 de abril de 2008

Saramago considera exposição na Ajuda uma revolução


Saramago gostava de andar aos pássaros , adorava a casa de telha onde viviam os avós porque acima de tudo os adorava "Ele gostava das férias porque podia rever o avô Jerónimo e ajudá-lo a tomar conta dos bacorinhos e ver o anoitecer deitado sob a oliveira grande que havia no quintal lá de casa. O meu primo era um rapaz tão bonito, tão elegante! E detestava que falassem alto na rua. Quando estava à mesa a almoçar ou a jantar tinha sempre um livro que ia lendo enquanto comia. Os livros eram uma grande paixão".

O escritor José Saramago considerou hoje que a exposição «A Consistência dos Sonhos» é uma revolução nas exposições bibliográficas tradicionais pela forma inovadora como foi concebida pela Fundação César Manrique.
Falando numa conferência de imprensa no Palácio da Ajuda sobre a exposição que será inaugurada quarta-feira, o Nobel da Literatura admitiu que só agora irá ver em pormenor esta mostra com mais de 1200 documentos sobre a sua vida e obra.
«Por motivos de saúde que todos conhecem quando a exposição inaugurou em Lanzarote não a vi como se justificava», recordou José Saramago, comentando que se sente bastante melhor neste momento e já recuperou 13 quilos.
O escritor confessou ter tido uma «fortíssima impressão» quando voltou hoje a percorrer a exposição e afirmou-se «perplexo» pela quantidade do seu trabalho.
Produzida pela Fundação César Manrique, sediada em Lanzarote, onde o Nobel da Literatura português reside com a mulher, Pilar del Rio, a exposição «José Saramago.
A Consistência dos Sonhos», tem por objectivo mostrar a obra literária e o pensamento crítico do escritor.
Está estruturada em três grandes núcleos, abrindo com uma projecção vídeo de Charles Sandison e terminando com uma autobiografia do escritor, reunindo ainda obras inéditas, manuscritos, notas pessoais, primeiras edições e fotografias.
Em Portugal, a exposição foi alargada para incluir documentação da BNP, nomeadamente outras obras do Nobel da Literatura, como «O Ano da Morte de Ricardo Reis», e correspondência de José Saramago com outros escritores, entre os quais José Rodrigues Miguéis e Adolfo Casais Monteiro.
A maior mostra jamais realizada sobre a vida e obra de José Saramago possui uma forte componente multimédia, com recurso a suportes digitais e audiovisuais, bem como obras de artes plásticas da colecção de José Saramago, de autores como Rogério Ribeiro, David de Almeida, José Santa-Bárbara, Júlio Pomar e Antoni Tápies, entre outros.
A exposição estará patente na Galeria D. Luís I até ao dia 27 de Julho de 2008, saindo depois em itinerância para Madrid e para várias capitais da América Latina.
Diário Digital / Lusa

19 de abril de 2008

Literatura em Viagem: encontro vai reunir autores portugueses e estrangeiros em Matosinhos



Clube Independente Ornitológico de Matosinhos

Cerca de 40 autores portugueses e estrangeiros vão participar entre amanhã e terça-feira no 3.º Encontro de Literatura em Viagem (LeV), em Matosinhos, que inclui oito mesas temáticas, lançamentos de livros, oficinas em escolas, exposições e concertos.Argentina, Brasil, Cuba, Espanha, Estados Unidos, França, Holanda, Itália, Moçambique e Reino Unido são, além de Portugal, os países de origem dos escritores participantes no colóquio organizado por Francisco Guedes e promovido pela Câmara de Matosinhos, que decorre até terça-feira na Biblioteca Florbela Espanca e na Galeria Municipal. Ao longo de quatro dias, as diferentes culturas, ocidental, oriental e africana, vão partilhar e discutir a ideia de pertença e de viagem interior, de auto-conhecimento.


Serão esses alguns dos temas em debate no encontro, que tem como mote a frase do pensador Eduardo Lourenço: "Mais importante que o destino é a viagem". A conferência de abertura da 3ª edição do LeV estará a cargo de Maria Barroso, sábado, às 11h00, no salão nobre da câmara, seguindo-se o lançamento do primeiro número da revista "Itinerâncias", a publicação oficial do encontro.

16 de abril de 2008

Editora de Coimbra reaparece com nova colecção de clássicos







A editora de Coimbra Angelus Novus apresenta na próxima sexta-feira, dia 18 de Abril, duas obras clássicas de autores portugueses, anotadas e comentadas, que inauguram uma nova colecção e marcam o seu relançamento editorial, após três anos de interregno.
A colecção, intitulada Biblioteca Lusitana, dirigida pelo docente universitário António Apolinário Lourenço, abre com os títulos «Mensagem», de Fernando Pessoa, e «Menina e Moça», de Bernardim Ribeiro. A primeira tem comentários e notas do próprio Apolinário Lourenço e a segunda está a cargo de Juan M. Carrasco González, professor da Universidade de Extremadura (Cáceres, Espanha).
O terceiro livro da colecção será «O Soldado Prático», de Diogo do Couto, editado por Ana María García Martín, da Universidade de Salamanca, a que se seguirão «Rimas» e «Os Lusíadas», de Camões (respectivamente editados por Maria do Céu Fraga e José Augusto Cardoso Bernardes).


Uma antologia da poesia trovadoresca (editada por dois especialistas galegos, Carlos P. M. Pereiro e Manuel Ferreiro), «Clepsidra», de Camilo Pessanha, uma antologia de «Trabalho Poético», de Carlos de Oliveira (por Osvaldo Silvestre), e de alguns autos vicentinos (editados por Pedro Serra e Ana María García Martín), farão igualmente parte da colecção.
A Biblioteca Lusitana incluirá os principais autores portugueses, como Camões e Fernando Pessoa, Eça de Queirós e Gil Vicente, Cesário Verde e Diogo do Couto, Vieira e Almeida Garrett. Entre os especialistas convidados para editarem as obras que integram esta colecção contam-se Ofélia Paiva Monteiro, Paulo Franchetti, José Augusto Cardoso Bernardes e Abel Barros Baptista.
Com esta colecção, a Angelus Novus pretende recuperar uma tradição de publicação de obras didácticas, seguindo um critério uniforme para todas elas, a que os estudiosos se submetem na elaboração de comentários e notas que acompanham cada uma.
«Sem querer tirar importância à colecção »Obras Clássicas da Literatura Portuguesa«, promovida pelo Ministério da Cultura e que envolve várias editoras, a verdade é que não há uma estratégia única nessa colecção e alguns livros não são sequer anotados, limitando o trabalho do editor a um prefácio ou um posfácio», realçou à agência Lusa António Apolinário Lourenço, da Faculdade de Letras de Coimbra.
As obras que integram a Biblioteca Lusitana - acrescentou - «são trabalhadas de acordo com regras muito precisas», e, por isso, haverá em todos os livros uma introdução, uma bibliografia selectiva e uma cronologia, para além do texto literário anotado. Conterá notas filológicas e notas interpretativas, «em que a fixação do texto é uma das tarefas mais importantes», enquanto a ortografia aparecerá modernizada.
Segundo António Apolinário Lourenço, as obras desta colecção dirigem-se preferencialmente a estudantes dos anos terminais do ensino secundário e do ensino superior, bem como a professores de português.
Os dois primeiros volumes da Biblioteca Lusitana serão lançados sexta-feira no Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra, e a apresentação estará a cargo de José Carlos Seabra Pereira e José Augusto Cardoso Bernardes.
Diário Digital / Lusa

Jan Kubelik plays "Zephyr" by Hubay